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Inovação & Tecnologia

Incerteza legal sobre IA desafia novos investimentos no setor

Relatório da Moody’s aponta que falta de legislação definitiva sobre treinamento de modelos trava aportes, enquanto consumo global de energia dispara para 2026

Redação Redação
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Incerteza legal sobre IA desafia novos investimentos no setor

Data Centers são essenciais para processamento de dados.

A expansão da infraestrutura digital necessária para sustentar o avanço da inteligência artificial enfrenta um obstáculo significativo no cenário brasileiro: a indefinição jurídica. Um novo relatório divulgado pela agência de classificação de risco Moody’s destaca que a ausência de uma legislação clara e definitiva sobre o treinamento de modelos de IA no Brasil adiciona uma camada de complexidade e risco para os investimentos em data centers.

Enquanto a demanda global por processamento de dados cresce exponencialmente, a segurança regulatória torna-se um fator decisivo para a alocação de capital estrangeiro e nacional em projetos de grande porte.

O que diz o relatório sobre a regulação no Brasil?

O documento da Moody’s enfatiza que a previsibilidade é a moeda mais valiosa para investidores de longo prazo. No caso específico do Brasil, a dúvida recai sobre como serão tratados os direitos autorais e a privacidade de dados durante o processo de "treinamento" das inteligências artificiais. Sem uma lei sancionada que defina os limites e as permissões para o uso de dados massivos, os desenvolvedores de infraestrutura hesitam em comprometer bilhões de reais em novas instalações, temendo passivos jurídicos futuros ou mudanças abruptas nas regras do jogo.

Embora existam iniciativas em andamento, como o projeto de lei conhecido como Redata, que visa estabelecer diretrizes para o setor, a demora na tramitação e a falta de consenso final geram um ambiente de espera. O mercado financeiro observa com cautela, pois a construção de um data center envolve planejamento de décadas, e a insegurança sobre a governança de dados pode inviabilizar a operação de clientes internacionais que exigem compliance rigoroso com normas globais.

Como o cenário internacional se compara ao brasileiro?

Em contraste com a hesitação observada em mercados com marcos legais indefinidos, outras regiões do globo aceleram seus processos regulatórios para atrair esses empreendimentos. O relatório cita o exemplo dos Estados Unidos, onde a administração federal busca antecipar a regulação para evitar um emaranhado de leis estaduais conflitantes. A recente ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump é vista pelo mercado como um movimento para simplificar o ambiente de negócios, reduzindo custos de conformidade e incentivando a construção rápida de novas unidades de processamento.

Essa competição global por infraestrutura coloca o Brasil em uma encruzilhada. Países que oferecem, além de energia barata, um arcabouço jurídico estável e favorável ao desenvolvimento tecnológico, tendem a capturar a maior fatia dos investimentos previstos para os próximos anos. A inteligência artificial não respeita fronteiras físicas, e as empresas de tecnologia, conhecidas como "hiperescaladores", tendem a migrar seus servidores para jurisdições onde o risco legal seja mitigado.

Por que a demanda por energia é uma preocupação central?

Além das questões legais, o relatório da Moody’s joga luz sobre o desafio físico e ambiental que acompanha a revolução da IA: o consumo voraz de eletricidade. A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que o consumo global dos data centers saltará de 436 terawatts-hora (TWh) em 2024 para cerca de 600 TWh em 2026. Para colocar em perspectiva, esse aumento equivale ao consumo anual de energia de países inteiros de médio porte.

Esse crescimento vertiginoso pressiona as redes elétricas locais e exige investimentos massivos em geração e transmissão. O processamento de algoritmos complexos de IA generativa requer chips de alta performance que operam em temperaturas elevadas, demandando sistemas de refrigeração potentes que, por sua vez, consomem ainda mais energia e, em muitos casos, grandes volumes de água. Isso tem gerado oposição local em diversas comunidades ao redor do mundo, preocupadas com a escassez de recursos naturais e o impacto ambiental desses "bunkers" digitais.

Quem está financiando essa expansão acelerada?

O perfil do investimento em data centers também está mudando. A Moody’s aponta que a maior parte da nova capacidade que será entregue até 2026 já nasce pré-alugada por gigantes da tecnologia. Empresas como Microsoft, Google e Amazon estão em uma corrida armamentista digital, reservando espaço e potência elétrica antes mesmo de os tijolos serem assentados. Isso reduz o risco de ociosidade para os construtores, garantindo fluxo de caixa imediato assim que a operação começa.

No entanto, essa dinâmica cria uma concentração de risco. Os bancos e investidores institucionais estão adaptando suas estruturas de financiamento para lidar com o fato de que poucos clientes dominam o mercado. A solidez de crédito dessas grandes corporações é o que viabiliza os empréstimos bilionários necessários para a construção. Além disso, o custo proibitivo das unidades de processamento gráfico (GPUs), essenciais para a IA, tem levado a modelos criativos de financiamento, onde o próprio hardware serve como garantia para a captação de recursos.

Quais são os riscos de construção e operação?

A pressa para colocar data centers em operação tem levado os inquilinos — as empresas de tecnologia — a assumir riscos que, tradicionalmente, eram de responsabilidade das construtoras. Para acelerar os prazos de entrega, cláusulas contratuais estão sendo flexibilizadas, especialmente no que tange à disponibilidade imediata de energia e conexões de serviços públicos.

Paralelamente, o setor enfrenta uma inflação de custos impulsionada pela escassez. Há uma falta global de mão de obra especializada para montar e operar essas instalações complexas, além de gargalos na cadeia de suprimentos de equipamentos críticos, como transformadores e geradores. O aumento no preço das commodities e dos materiais de construção pressiona as margens de lucro e eleva o custo final da computação em nuvem, um repasse que eventualmente chega ao consumidor final de serviços digitais.

O que esperar para o mercado em 2026?

As projeções indicam que o setor continuará crescendo a taxas de dois dígitos ao longo de 2026. A monetização das novas instalações deve ser rápida, impulsionada pela integração da inteligência artificial em praticamente todos os setores da economia, desde o agronegócio até o sistema financeiro. A infraestrutura digital tornou-se a espinha dorsal da economia moderna, e a capacidade de processamento de dados é agora tão crítica quanto o fornecimento de energia elétrica ou água.

Para o Brasil, o desafio permanece duplo: destravar a pauta regulatória para oferecer segurança jurídica aos investidores e garantir que sua matriz energética, majoritariamente renovável, possa suportar a demanda adicional sem comprometer o abastecimento de outras áreas. O país possui vantagens competitivas naturais, como espaço e recursos hídricos, mas precisa alinhar sua estratégia legislativa à velocidade do mercado global para não ficar à margem da próxima revolução industrial.

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