O Agente Secreto: Brasília é cenário de filme indicado ao Oscar
Produção dirigida por Kleber Mendonça Filho teve cenas gravadas no Setor Comercial Sul; arquiteto relata bastidores das filmagens de 2024
‘O Agente Secreto’ e Wagner Moura são indicados ao Oscar em 4 categorias.
A capital federal voltou a ocupar posição de destaque no cenário cinematográfico mundial com a confirmação das indicações ao Oscar de 2026. O filme O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, concorre em quatro categorias da premiação, igualando o recorde histórico de Central do Brasil.
Parte fundamental da ambientação da obra, que retrata o período da ditadura militar, foi captada nas ruas de Brasília, mais especificamente no Setor Comercial Sul (SCS). As gravações, realizadas em dezembro de 2024, transformaram a rotina da região central e agora levam a arquitetura modernista da cidade para as telas de todo o mundo.
O que o morador viu durante as gravações?
Para quem transita diariamente pelo centro de Brasília, a movimentação de uma grande produção cinematográfica pode passar despercebida em meio à correria do cotidiano, mas os detalhes não escaparam aos olhos mais atentos. O arquiteto Hermes Romão, que mantém seu escritório no edifício Morro Vermelho, foi uma das testemunhas oculares das filmagens. Segundo seu relato, a transformação do ambiente foi imediata e impactante, transportando o local para outra década.
Ao chegar para uma vistoria de rotina em seu escritório durante um fim de semana, Romão se deparou com uma cena atípica. A recepção do prédio estava ocupada por figurantes caracterizados com roupas da década de 1970, descansando e se alimentando entre os intervalos das cenas. Do lado de fora, a paisagem urbana do Setor Comercial Sul havia sido modificada com a presença de carros de época, posicionados estrategicamente para compor a atmosfera do longa-metragem.
O arquiteto descreveu a experiência como uma viagem no tempo. A fidelidade da produção aos detalhes históricos chamou sua atenção, embora, no momento, ele não tivesse dimensão da magnitude do projeto. Hermes relatou que, se soubesse tratar-se de uma obra com potencial de premiação internacional e dirigida por um dos maiores nomes do cinema atual, teria permanecido mais tempo no local para acompanhar o processo criativo de perto. A percepção da grandiosidade do evento só ocorreu posteriormente, ao ver as confirmações nas redes sociais e na imprensa especializada.
Por que o Setor Comercial Sul foi escolhido?
A escolha de Brasília, e especificamente do Setor Comercial Sul, não foi aleatória. A arquitetura da cidade desempenha um papel narrativo crucial em filmes de época situados na segunda metade do século XX. Os edifícios Morro Vermelho e Camargo Corrêa, conhecidos popularmente como "edifícios gêmeos", serviram de pano de fundo para as cenas. Inaugurados em 1974, ambos foram projetados pelo renomado arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, e preservam a estética brutalista e modernista característica daquele período.
O edifício Morro Vermelho, com sua identidade cromática marcante, e o vizinho Camargo Corrêa, identificado pelos brises de tonalidade azul, oferecem uma cenografia pronta e autêntica. Para uma produção que se passa durante os anos de chumbo da ditadura militar, a preservação visual dessas estruturas em Brasília permite que a cidade funcione como um estúdio a céu aberto. A geometria das fachadas e o urbanismo do plano piloto colaboram para criar a sensação de opressão e vigilância, temas recorrentes na filmografia de Kleber Mendonça Filho.
Além da estética, a logística do local permitiu a recriação de elementos urbanos específicos. Uma das cenas gravadas na capital mostra o protagonista Marcelo, vivido por Wagner Moura, utilizando um orelhão da época. A sequência retrata a tentativa do personagem de burlar o sistema de repressão enquanto realiza uma ligação, utilizando a arquitetura labiríntica do setor comercial como elemento de tensão e refúgio.
Qual é a importância histórica da produção?
O Agente Secreto marca um momento significativo para o cinema nacional ao receber quatro indicações ao Oscar, a maior premiação da indústria cinematográfica global. O feito coloca a produção no mesmo patamar de reconhecimento de clássicos como Central do Brasil, de Walter Salles, reacendendo a esperança de uma estatueta para o país. As categorias em disputa refletem a qualidade técnica e narrativa da obra, que combina suspense político com a reconstrução histórica minuciosa.
A trama acompanha Marcelo, um professor universitário que foge de São Paulo para o Recife na tentativa de escapar de agentes do governo na década de 1970. No entanto, ao chegar ao destino, ele percebe que a vigilância é onipresente e que seus vizinhos podem não ser quem aparentam. A passagem por Brasília conecta os pontos da narrativa, simbolizando o centro do poder e das decisões que afetavam a vida dos cidadãos naquele contexto histórico.
A produção também reforça a posição de Kleber Mendonça Filho como um dos diretores mais influentes de sua geração. Conhecido por filmes como Bacurau e Aquarius, o cineasta tem um histórico de valorização dos espaços urbanos e da memória política brasileira. A inclusão de Brasília nas locações demonstra um reconhecimento da cidade não apenas como centro administrativo, mas como um espaço de memória viva que dialoga diretamente com o roteiro.
Como foi a repercussão entre a equipe e a cidade?
A relação entre a produção do filme e a cidade de Brasília foi marcada por cordialidade e reconhecimento mútuo. Em setembro do ano passado, durante a abertura da 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizada no histórico Cine Brasília, o diretor fez questão de agradecer publicamente à capital federal. Em suas redes sociais, Kleber Mendonça Filho mencionou as gravações ocorridas em dezembro do ano anterior e dedicou o resultado final à acolhida que a equipe recebeu.
O reconhecimento por parte do diretor valida a importância da cidade como polo de produção audiovisual. Para os profissionais locais do setor, a presença de uma equipe desse porte gera movimentação econômica e intercâmbio técnico. Além disso, ver as ruas e edifícios do Distrito Federal em uma tela de cinema internacional fortalece a identidade cultural da região, muitas vezes reduzida apenas ao noticiário político.
A cerimônia de entrega do Oscar está agendada para o dia 15 de março de 2026. Até lá, a expectativa em torno de O Agente Secreto deve crescer, atraindo a atenção do público para os locais de filmagem. Para os brasilienses e moradores do Entorno que frequentam o Setor Comercial Sul, os edifícios de Lelé ganham agora uma nova camada de significado, imortalizados em uma obra que documenta um período crucial da história brasileira.