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Recuperação judicial da Fictor revela dívidas milionárias com credores inusitados

Holding financeira enfrenta crise de R$ 4,2 bilhões após investigação da Polícia Federal e inclui bordel de luxo e ex-condenado por tráfico em lista de pagamentos.

Redação Redação
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Recuperação judicial da Fictor revela dívidas milionárias com credores inusitados

Caster Club, um bordel localizado na Vila Formosa, zona leste de São Paulo.

O Grupo Fictor, holding financeira que recentemente se tornou alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de irregularidades, protocolou um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo revelando um passivo total de R$ 4,2 bilhões. A lista de credores do grupo, composta por mais de 13 mil nomes entre pessoas físicas e jurídicas, chamou a atenção por incluir perfis atípicos, como uma tradicional casa de entretenimento adulto na zona leste da capital paulista e um empresário do interior de São Paulo com histórico criminal.

O processo ocorre em um momento delicado para a instituição, que viu seus planos de expansão serem interrompidos por denúncias de fraude durante a tentativa de aquisição de uma instituição bancária.

Como funciona o modelo de investimento do Grupo Fictor?

Para compreender a magnitude da dívida e a diversidade de credores, é necessário analisar o modelo de captação de recursos utilizado pela empresa. A Fictor operava majoritariamente através de Sociedades em Conta de Participação, um formato jurídico comumente aplicado em empreendimentos imobiliários de longo prazo. No entanto, investigações e denúncias judiciais apontam que o grupo utilizava esse mecanismo para atrair investidores do varejo, funcionando na prática como um produto de investimento financeiro tradicional, mas sem as regulamentações e garantias típicas de instituições bancárias ou corretoras de valores mobiliários.

Nesse sistema, os investidores tornavam-se sócios participantes, injetando capital na expectativa de retornos sobre as operações da holding, que envolveriam commodities agrícolas, infraestrutura e outros setores. O volume massivo de 13 mil credores sugere uma captação agressiva em diversas camadas da sociedade, atingindo desde pequenos poupadores até empresas estabelecidas e indivíduos com altos valores disponíveis para aporte. A crise de liquidez que levou ao pedido de recuperação judicial interrompeu o fluxo de pagamentos dessas participações, deixando milhares de pessoas em situação de incerteza financeira.

Qual a relação entre a Fictor e o bordel Caster Club?

Entre os nomes que constam na extensa relação de dívidas apresentada à Justiça, destaca-se o Caster Club, um bordel localizado na Vila Formosa, zona leste de São Paulo. A empresa possui um crédito de R$ 1 milhão a receber da holding financeira. O estabelecimento é conhecido na região por sua longevidade, operando desde a década de 1980 em um complexo que inclui palcos para apresentações, restaurante, bar e um hotel anexo. A inclusão de uma casa noturna desse gênero como investidora de uma holding bilionária levanta questões sobre os critérios de conformidade e a origem dos recursos captados pela Fictor.

Funcionários do estabelecimento confirmaram a identidade da empresa listada no processo, embora a administração não tenha se manifestado formalmente sobre a natureza do investimento realizado. O aporte teria sido feito nos mesmos moldes dos demais credores, por meio das cotas de participação. Este caso ilustra a falta de filtros ou restrições no perfil de clientes que a Fictor buscava para alimentar seu caixa operacional, aceitando vultosas quantias provenientes de setores informais ou de entretenimento adulto sem o rigor de auditoria esperado em grandes movimentações financeiras.

Quem é o ex-condenado por tráfico que investiu R$ 2,5 milhões?

Outro ponto que gerou perplexidade no processo de recuperação judicial foi a presença de Roger Machado, morador de Campinas, que figura como credor de aproximadamente R$ 2,5 milhões. Machado tem um histórico criminal que inclui uma prisão em flagrante em 2006 por venda de entorpecentes no Terminal Central de Campinas, além de registros por condução de veículo sob efeito de álcool e evasão de bloqueio policial. Atualmente, ele afirma que sua renda provém de atividades lícitas como comerciante, proprietário de restaurantes e locação de imóveis, justificando o montante investido na holding como fruto de seu trabalho empresarial.

A defesa do investidor alega que ele foi vítima de perseguição no passado e que os valores aportados na Fictor representam suas economias legítimas. A intermediação do negócio foi feita por um economista da região de Campinas, que atuava como captador de clientes para a holding. Segundo o profissional, o processo de prospecção ocorria em ambientes informais, como eventos sociais, e não havia uma exigência interna da Fictor para que fosse realizada uma verificação profunda de antecedentes criminais dos investidores, focando-se apenas no preenchimento de dados cadastrais básicos.

Por que a American Express nega ser credora da holding?

Um dos capítulos mais controversos da petição inicial apresentada pela Fictor envolve a American Express. A holding financeira listou a gigante dos cartões de crédito como sua principal credora, com um suposto débito de R$ 891,3 milhões. No entanto, a American Express negou publicamente a existência de tal crédito, o que gerou suspeitas imediatas sobre a veracidade de toda a lista apresentada à Justiça. Essa divergência colossal de dados é um dos motivos pelos quais o Tribunal de Justiça de São Paulo ordenou que a Fictor refizesse e reapresentasse sua relação de credores com informações fidedignas e comprovadas.

A inclusão de valores fictícios ou inflados em um processo de recuperação judicial é considerada uma falta grave, podendo configurar crime falimentar e tentativa de fraude contra o sistema judiciário. Caso a empresa não consiga justificar esses números ou apresentar uma lista que corresponda à realidade contábil, os administradores judiciais e o Ministério Público podem solicitar medidas mais drásticas, incluindo a convolação da recuperação em falência ou o afastamento imediato dos sócios gestores para investigação de malversação de ativos.

O que o futuro reserva para o Grupo Fictor e seus investidores?

O cenário atual para o Grupo Fictor é de isolamento e pressão jurídica. Além do imbróglio financeiro, a investigação da Polícia Federal sobre a tentativa frustrada de compra de uma fatia do Banco Master coloca a empresa sob a lupa de órgãos de combate à lavagem de dinheiro. A suspeita é de que a holding tentou utilizar recursos de origem duvidosa para entrar no sistema bancário oficial, o que disparou alertas nas autoridades de fiscalização financeira. O prazo estipulado pelo TJSP para a correção da lista de credores é o primeiro passo para determinar se a empresa possui viabilidade de reestruturação ou se está diante de um colapso irreversível.

Para os 13 mil credores, o caminho para a recuperação do dinheiro investido tende a ser longo e incerto. Em processos dessa magnitude, os ativos da empresa costumam ser insuficientes para cobrir o passivo bilionário, e a prioridade de pagamento segue uma ordem legal que muitas vezes deixa investidores de risco, como os sócios participantes de SCPs, em posições desfavorecidas em relação a dívidas trabalhistas e tributárias. A transparência dos próximos passos judiciais será fundamental para entender se houve uma má gestão de mercado ou se o Grupo Fictor operou deliberadamente fora dos limites da lei.

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