Senado discute uso do fundo do pré-sal para dívidas do agro
Projeto visa financiar agricultores afetados por calamidades climáticas, mas gera controvérsias sobre impactos em outras políticas.
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
O plenário do Senado deve analisar, nesta quarta-feira (10), um projeto de lei que destina recursos do Fundo Social do Pré-Sal para financiar dívidas de agricultores que enfrentaram perdas em suas safras devido a calamidades climáticas. O governo apresentou objeções ao parecer do relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), que não acolheu algumas demandas do Ministério da Fazenda para modificar o texto original proveniente da Câmara dos Deputados.
O que muda para o cidadão?
O projeto de lei 5.122 de 2023, aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado no final de maio, prevê também o uso de receitas de outros fundos, como os de Financiamento do Nordeste (FNE), do Norte (FNO) e do Centro-Oeste (FCO). Essa proposta levanta preocupações sobre o impacto que terá em programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida, que atualmente é financiado pelo Fundo do Pré-Sal. Segundo o pesquisador Iago Montalvão, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), a destinação dos recursos para o agronegócio pode inviabilizar outras políticas sociais, especialmente em habitação.
Atualmente, 50% do Fundo do Pré-Sal são destinados à educação, enquanto a outra metade é repartida entre áreas como saúde, ciência e tecnologia, cultura e esportes. A proposta de redirecionar esses recursos para o agronegócio pode resultar na diminuição do financiamento disponível para essas áreas, criando um cenário de incertezas para os cidadãos que dependem dessas políticas públicas.
Quem tem direito ao benefício?
O projeto determina que os agricultores que tiveram suas safras comprometidas por eventos climáticos poderão acessar os recursos destinados ao refinanciamento das dívidas. A proposta inicial da Câmara dos Deputados previa um montante entre R$ 30 bilhões e R$ 100 bilhões para esse financiamento, mas o relator Renan Calheiros transferiu ao Poder Executivo a responsabilidade de definir o limite de gastos com o refinanciamento do setor. Isso gera preocupações sobre a pressão que o governo poderá sofrer para alocar um valor elevado, comprometendo recursos que poderiam ser utilizados em outras áreas.
Montalvão ressalta que o Fundo Social do Pré-Sal, destinado a financiar políticas permanentes, tem se tornado um recurso utilizado em situações emergenciais, como resposta a calamidades. Essa mudança de finalidade pode fazer com que o fundo se transforme em um instrumento de disputa entre diferentes setores, dificultando a manutenção de um equilíbrio nas políticas públicas que afetam a população.
Qual o futuro do Fundo Social do Pré-sal?
Criado em 2010, o Fundo Social do Pré-Sal foi estabelecido para financiar políticas de caráter permanente com recursos oriundos do pré-sal, uma riqueza finita. Ao longo dos anos, o fundo passou por diversas alterações, incluindo a inclusão de novas atribuições, como o financiamento de políticas de habitação social e de mitigação das mudanças climáticas. A inclusão de novos usos para o fundo tem sido motivo de debate no cenário político, especialmente em momentos de crise, onde a necessidade de recursos para emergências se torna premente.
O projeto de lei que será votado no Senado nesta quarta-feira é um reflexo das tensões entre o agronegócio e outras áreas sociais. O governo busca atender a demandas imediatas do setor agrícola, mas isso pode significar um retrocesso em outras áreas essenciais para a sociedade. A continuidade do debate e a definição dos limites para o uso do Fundo do Pré-Sal serão cruciais nas próximas semanas, à medida que se busca um equilíbrio entre as necessidades do agronegócio e o financiamento de políticas sociais.