Rede de Hortos Agroflorestais do DF recebe visita de comitê da ONU
Representantes da FAO analisam projeto de segurança alimentar e saúde pública na Vila Planalto como modelo para replicação em outros países.
Comitê de Segurança Alimentar Mundial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura visitou a Unidade Básica de Saúde 3 da Asa Norte.
O Comitê de Segurança Alimentar Mundial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura visitou a Unidade Básica de Saúde 3 da Asa Norte, localizada na Vila Planalto, na última quinta-feira, 5 de março de 2026. A comitiva internacional buscou conhecer de perto a Rede de Hortos Agroflorestais Medicinais e Biodinâmicos do Distrito Federal, uma iniciativa da Secretaria de Saúde que integra o cultivo de plantas medicinais ao atendimento público.
O encontro ocorreu no contexto da 39ª Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, realizada no Palácio do Itamaraty, consolidando o projeto local como uma referência global em políticas de segurança alimentar e bem-estar comunitário.
Qual o objetivo da visita da ONU aos hortos do DF?
A presença de autoridades internacionais no Distrito Federal teve como foco principal a identificação de projetos práticos que possam servir de exemplo para outras nações. De acordo com Jhenifer Mojica, vice-presidente do Comitê de Segurança Alimentar Mundial, e Chiara Cirulli, secretária do órgão, a busca é por iniciativas que transformem recomendações teóricas em ações concretas de saúde e nutrição.
O Comitê de Segurança Alimentar Mundial é a principal plataforma intergovernamental dedicada a formular orientações políticas baseadas em evidências científicas para o combate à fome. Ao visitar a unidade na Vila Planalto, os representantes da ONU puderam observar como o manejo da terra e o cultivo biodinâmico dentro de uma estrutura de saúde pública podem impactar diretamente a qualidade de vida da população local, oferecendo um modelo sustentável de baixo custo e alto impacto social.
Para a organização, o projeto desenvolvido pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal demonstra que as políticas de segurança alimentar não precisam ser abstratas. A proposta da rede de hortos é vista como uma solução que une o conhecimento tradicional sobre plantas medicinais à assistência técnica de saúde, criando um ecossistema que promove tanto a cura quanto a prevenção de doenças por meio do contato com a natureza e o consumo de alimentos e ervas de procedência garantida.
Como funciona a Rede de Hortos Agroflorestais?
A Rede de Hortos Agroflorestais Medicinais e Biodinâmicos foi instituída oficialmente por meio da Portaria nº 137, de abril de 2025, embora o trabalho de base tenha começado anos antes. O sistema baseia-se na criação de espaços de cultivo comunitário dentro ou próximos às unidades de saúde. Diferente de uma horta convencional, o modelo agroflorestal simula processos naturais de florestas, integrando diferentes espécies vegetais de forma harmônica e sustentável.
O monitoramento dessas áreas fica a cargo da Gerência de Práticas Integrativas em Saúde da Secretaria de Saúde. O objetivo central é utilizar essas plantas para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, oferecendo alternativas complementares aos tratamentos convencionais. Além do fornecimento de insumos para fitoterápicos, os hortos funcionam como espaços terapêuticos, onde os pacientes participam ativamente do manejo, promovendo a saúde mental e a integração social.
Desde 2018, o projeto experimentou uma expansão significativa. Atualmente, existem quase 40 unidades distribuídas por diversas regiões do Distrito Federal, resultado de um esforço contínuo de capacitação. Mais de cem profissionais da rede pública já foram treinados para gerir esses espaços, garantindo que o conhecimento técnico seja aplicado de forma padronizada em todas as cidades atendidas.
Qual o papel da parceria com a Fiocruz Brasília?
O crescimento e a consolidação da rede de hortos no Distrito Federal contam com o suporte técnico e científico da Fundação Oswaldo Cruz Brasília. Essa parceria é fundamental para garantir a segurança biológica e a eficácia das espécies cultivadas. A Fiocruz atua na validação científica do uso dessas plantas e no treinamento dos servidores, assegurando que a prática agroflorestal esteja alinhada aos mais altos padrões de saúde pública.
A colaboração entre a Secretaria de Saúde e a Fiocruz permite que o projeto avance além do plantio, alcançando a produção de conhecimento acadêmico e a sistematização de dados sobre os benefícios das práticas integrativas. Isso atrai a atenção de órgãos como a FAO, pois oferece o embasamento necessário para que o modelo seja replicado em contextos geográficos e sociais distintos, tanto em outros estados brasileiros quanto em outros países da América Latina.
A presença de instituições de pesquisa renomadas no processo confere à rede de hortos uma credibilidade institucional elevada. Isso facilita a captação de recursos e o interesse de delegações estrangeiras que buscam soluções validadas para crises alimentares e sobrecarga nos sistemas de saúde. A integração entre o saber popular dos hortos e a ciência de ponta da Fiocruz é apontada como o grande diferencial da iniciativa brasiliense.
Quais os benefícios para o sistema de saúde pública?
A implementação de hortos agroflorestais traz benefícios multifacetados para a gestão pública. O primeiro deles é a redução de custos com determinados medicamentos de baixa complexidade, que podem ser substituídos ou complementados por terapias fitoterápicas seguras. Além disso, o envolvimento da comunidade no cultivo reduz o isolamento social e melhora indicadores de saúde mental, diminuindo a demanda por consultas psiquiátricas e ansiolíticos.
Do ponto de vista ambiental, os hortos na Vila Planalto e em outras localidades contribuem para a manutenção do microclima e para a preservação da biodiversidade urbana. Em um cenário de mudanças climáticas, a promoção de áreas verdes produtivas dentro das cidades é uma estratégia de resiliência recomendada por agências internacionais. A Secretaria de Saúde entende que o ambiente onde o cidadão vive é um determinante direto de sua condição física.
A projeção internacional alcançada com a visita da ONU reforça a posição do Distrito Federal como um polo de inovação em práticas integrativas. Segundo Marcos Trajano, gerente de Práticas Integrativas em Saúde da pasta, o reconhecimento global valida anos de trabalho dedicado à humanização do atendimento. A expectativa é que, após a conferência regional, o modelo de Brasília passe a figurar em relatórios técnicos da FAO como uma das principais estratégias de segurança alimentar para o século XXI.
O projeto segue em fase de monitoramento constante, com planos de expansão para outras regiões administrativas que ainda não possuem o serviço. A meta é que cada UBS tenha acesso a um espaço de cultivo biodinâmico, aproximando a medicina moderna das raízes naturais e comunitárias. A visita do comitê internacional encerra um ciclo de reconhecimento e inicia uma fase de possível cooperação técnica para exportar a tecnologia social desenvolvida na capital federal.